Visitei a exposição "Cariri:corpo, terra e cultura" do Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo (Crato). Muitos trabalhos importantes estavam reunidos e fiquei feliz de vê-los ocupando as galerias. Requer um bom tempo para ver tudo com calma e há bastante sobre o que pensar...
Os artistas já consagrados tiveram destaque importante: esculturas do centro Mestre Noza, as de Sérvulo Esmeraldo, as da família Cândido. Xilogravuras de Stênio, Nilo, Abraão, Iraci. Também pinturas de Vicente Leite, Karimai, Babinski, Cocão. As linhas mágicas de Ciel e as de Herbert. A região tem artistas muito talentosos.
Muitas cores e formas, todas reunidas como num baile de cenas do Cariri. Nomes novos também compõem a exposição com seus trabalhos recentes. Gostei de ver as aquarelas de Lídia, que ela cuidadosamente havia mostrado a mim e a uma amiga quando passamos um dia luminoso com o casal Babinski no ateliê-casa, em Várzea Alegre. Gosto sempre de contemplar as obras de Aldemir Martins, de quem sou fã do traço e das formas.
Ainda assim, senti falta de alguns artistas. Nomes novos estavam presentes, com trabalhos recentes, mas alguns simplesmente não estavam. Em alguns trabalhos, senti falta de um silêncio que pode ser sugerido para que o observador elabore suas própria percepção. Nesses, não me demorei tanto e acho que poderiam ter dado lugar a outras obras. Aliás, as galerias tem dimensões suficientes para receber mais variedade e evitar repetir um mesmo artista em espaços diferentes. Senti falta de algo sobre o cinema, talvez porque esse seja um assunto que me é caro. O cinema tem estado na cultura do Cariri (em especial Crato, Juazeiro e Barbalha) desde o início do século XX, tendo sido em Crato, em 1912, a primeira sessão de cinema do interior do estado. São mais de cem anos de uma história local com o cinema, ainda que apagada, esquecida. Mas não devemos pensar somente naquilo que está ausente, portanto, gostaria de destacar as obras de duas artistas que me marcaram.
Estive muito feliz ao encontrar a série 'Flora Cariri' da artista Andreia Sobreira e uma série de natureza-morta da artista Renata Felinto.
Na primeira, gravuras feitas com entalhes na madeira (xilogravura) mas que, diverso de uma tradição local já bastante antiga, oferecem uma proposta diferente. Ao invés de gravuras retangulares, o formato cápsula, quase como o de uma semente, me tocou especialmente. Não apenas isso. Penso que a tinta escolhida para a gravura não foi a tipográfica tradicional, bastante preta, mas uma tinta feita com pigmentos naturais. O efeito é uma textura delicada sobre o papel que conversa intimamente com o tema, a flora, e o traço delicado de Andreia. Gostei muito da composições escolhidas, me lembraram bastante as pranchas de espécies de plantas feitas por naturalistas e ao mesmo tempo a composição captada da observação natural, que é a mesma que buscamos com o sumi-e.
Na segunda, natureza-mortas que chegam a ser irônicas em relação ao termo. Muitas cores vivas em pastel seco trazem cenas cotidianas de frutas observadas. Pinha (foto), banana, laranja. Todas parecem evocar algo que tomo emprestado das palavras Monet e que virou uma frase-mantra pra mim: "O que mantém meu coração acordado é um silêncio colorido". Nos quadros de Felinto, tudo se fez silêncio guiado por cores: é a comida e sua diversidade, seus aromas, suas texturas, formas, cores. Mas também é uma comida que nos reúne à mesa ou a que observamos sozinhos em nossos momentos de solidão, reflexão. O pastel seco trouxe, além de uma textura que me lembra a infância, um lembrete das muitas cores que habitam as coisas. Não discernimos todas na pressa dos dias, mas um olhar atencioso nos revela a sua variedade.
Muitos são os artistas da exposição e vale a pena ir conferir de perto.
Parabéns, Gilles. Comecei a ler seu excelente blog por essa postagem que trata de sua visitação à Mostra Cariri, ora em cartaz no Centro Cultural do Cariri. Vou fazer o mesmo aqui o que você fez lá CCC. Ir com calma pra poder apreciar tudo sem atropelo.
ResponderExcluirGrande abraço.
Carlos Rafael
Obrigado pela leitura, Carlos Rafael! A arte pede um tempo, como os silêncios de uma conversa ou de uma música. Vale a pena a visita. Abraço.
ResponderExcluir