quinta-feira, 28 de maio de 2026

As cores da terra, as cores da vida

Visitei a exposição "Cariri:corpo, terra e cultura" do Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo (Crato). Muitos trabalhos importantes estavam reunidos e fiquei feliz de vê-los ocupando as galerias. Requer um bom tempo para ver tudo com calma e há bastante sobre o que pensar...
Os artistas já consagrados tiveram destaque importante: esculturas do centro Mestre Noza, as de Sérvulo Esmeraldo, as da família Cândido. Xilogravuras de Stênio, Nilo, Abraão, Iraci. Também pinturas de Vicente Leite, Karimai, Babinski, Cocão. As linhas mágicas de Ciel e as de Herbert. A região tem artistas muito talentosos.

Muitas cores e formas, todas reunidas como num baile de cenas do Cariri. Nomes novos também compõem a exposição com seus trabalhos recentes. Gostei de ver as aquarelas de Lídia, que ela cuidadosamente havia mostrado a mim e a uma amiga quando passamos um dia luminoso com o casal Babinski no ateliê-casa, em Várzea Alegre. Gosto sempre de contemplar as obras de Aldemir Martins, de quem sou fã do traço e das formas.

Ainda assim, senti falta de alguns artistas. Nomes novos estavam presentes, com trabalhos recentes, mas alguns simplesmente não estavam. Em alguns trabalhos, senti falta de um silêncio que pode ser sugerido para que o observador elabore suas própria percepção. Nesses, não me demorei tanto e acho que poderiam ter dado lugar a outras obras. Aliás, as galerias tem dimensões suficientes para receber mais variedade e evitar repetir um mesmo artista em espaços diferentes. Senti falta de algo sobre o cinema, talvez porque esse seja um assunto que me é caro. O cinema tem estado na cultura do Cariri (em especial Crato, Juazeiro e Barbalha) desde o início do século XX, tendo sido em Crato, em 1912, a primeira sessão de cinema do interior do estado. São mais de cem anos de uma história local com o cinema, ainda que apagada, esquecida. Mas não devemos pensar somente naquilo que está ausente, portanto, gostaria de destacar as obras de duas artistas que me marcaram.
 
Estive muito feliz ao encontrar a série 'Flora Cariri' da artista Andreia Sobreira e uma série de natureza-morta da artista Renata Felinto.

Na primeira, gravuras feitas com entalhes na madeira (xilogravura) mas que, diverso de uma tradição local já bastante antiga, oferecem uma proposta diferente. Ao invés de gravuras retangulares, o formato cápsula, quase como o de uma semente, me tocou especialmente. Não apenas isso. Penso que a tinta escolhida para a gravura não foi a tipográfica tradicional, bastante preta, mas uma tinta feita com pigmentos naturais. O efeito é uma textura delicada sobre o papel que conversa intimamente com o tema, a flora, e o traço delicado de Andreia. Gostei muito da composições escolhidas, me lembraram bastante as pranchas de espécies de plantas feitas por naturalistas e ao mesmo tempo a composição captada da observação natural, que é a mesma que buscamos com o sumi-e.

Na segunda, natureza-mortas que chegam a ser irônicas em relação ao termo. Muitas cores vivas em pastel seco trazem cenas cotidianas de frutas observadas. Pinha (foto), banana, laranja. Todas parecem evocar algo que tomo emprestado das palavras Monet e que virou uma frase-mantra pra mim: "O que mantém meu coração acordado é um silêncio colorido". Nos quadros de Felinto, tudo se fez silêncio guiado por cores: é a comida e sua diversidade, seus aromas, suas texturas, formas, cores. Mas também é uma comida que nos reúne à mesa ou a que observamos sozinhos em nossos momentos de solidão, reflexão. O pastel seco trouxe, além de uma textura que me lembra a infância, um lembrete das muitas cores que habitam as coisas. Não discernimos todas na pressa dos dias, mas um olhar atencioso nos revela a sua variedade.

Muitos são os artistas da exposição e vale a pena ir conferir de perto.

terça-feira, 26 de maio de 2026

PUFFY 30

Alguns projetos guardamos apenas no coração. Em 2021, iniciei um projeto de fanzine e sabia que levaria muito tempo para elaborar.

Aqueles que me conhecem há bastante tempo sabem o quanto sou fã do duo de rock japonês PUFFY. Há pelo menos 25 anos (mais da metade da idade que tenho agora) tenho acompanhado o trabalho da dupla e visto mudanças musicais e estéticas em sua carreira, que muito me ensinaram sobre experimentar coisas novas (técnicas, estéticas, influências). Sim, penso que quando gostamos muito de algo essa coisa nos fornece não apenas prazer mas algum aprendizado. Cresci junto com PUFFY, mesmo tendo conhecido a sua música quando já era adolescente. Talvez por isso mesmo minha admiração tenha sido tão formadora, já que nasceu num momento de amadurecimento.

Com PUFFY eu conheci diferentes ritmos e descobri que o rock não precisa ser um gênero musical fechado. A banda me mostrou que é possível misturar ritmos, instrumentos, brincar com a música e se divertir com isso. Foi com PUFFY que conheci muitos outros artistas talentosos como Electric Light Orchestra, The Cardigans, Eels, The Monkees, Jellyfish... Também àquela época foi quando comecei a realmente estudar a língua japonesa, buscando na música um jeito de aprender a pronúncia.

Há cinco anos, comecei a criar um fanzine ilustrado como uma espécie de Guia para apresentar a banda aos brasileiros. Nele, eu conto um pouco da história da dupla, suas influências musicais, curiosidades sobre Ami e Yumi, além de fazer pequenas resenhas para todos os singles e álbuns lançados. Não preciso nem dizer que esse trabalho de redator da Wikipedia precisou ser engavetado por mil e um fatores.

No último dia 13, a banda completou 30 anos de carreira e está nos preparativos para um grande evento comemorativo em junho. Depois de muito tempo, finalmente, outro fã que sempre acompanho (https://amiyumidas.blogspot.com/2026/05/pfes-final-line-up.html) postou uma resenha sobre o lançamento da última coletânea lançada. Isso me motivou a escrever sobre. O fanzine está guardado, mas quis trazer algumas das ilustrações que fiz para as resenhas dos álbuns.

Vou deixar aqui uma rara entrevista em inglês feita no aniversário de 15 anos de PUFFY, para uma revista norte-americana. Vale a pena uma conferida principalmente para quem não sabe absolutamente nada sobre a dupla: https://nt2099.com/J-ENT/INTERVIEWS/puffyamiyumi/puffy15.pdf

terça-feira, 12 de maio de 2026

ipomeias pelo caminho

Esses dias, quando voltava pra casa, vi uma cerca de um terreno baldio coberta de ipomeias. Era fim de tarde e a luz do por do sol transformou o azul acetinado das flores num roxo delicado. Não resisti e já quis fazer uma pintura delas. São facilmente encontradas pela estrada, e dão à paisagem um toque único, já que os tons de azul são mais raros na natureza.

Eu quis levar a leveza das ipomeias de presente a uma tia-avó que fez aniversário ontem, por isso dediquei essa pintura a ela. Ela não só amou como me encomendou outras.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Flores do dia

Há alguns anos, arranjamos uma muda de Vanilla grandifolia, a baunilha. Era bem pequena, do tamanho de uma caneta. Escolhemos um bom lugar e pacientemente cuidamos dela até que criasse raízes. Depois, cresceu por conta própria e foi subindo pela parede (ela é trepadeira). Lemos bastante sobre a espécie, porque a nossa intenção era produzir extrato natural, e vimos que teríamos um longo trabalho pela frente. Encontramos dados de que a baunilha floresce entre cinco e oito anos. Para a nossa surpresa, vimos os primeiros botões se formarem quando a nossa tinha quase quatro anos e ficamos muito animados.

A baunilha é da família das orquídeas e tem flores bem bonitas, de um amarelo pálido, que só ficam abertas durante a manhã, das seis às onze. Como no Brasil não há o besouro que faz a polinização das flores, precisamos fazê-la manualmente, uma a uma. Depois disso, elas murcham totalmente e caem. Após isso, vêm as favas, que depois de um longo processo de desidratação, ficam com aquele aroma adocicado que conhecemos. É com elas que aromatizamos receitas e produzimos o extrato.

 

Semana passada, apareceram os primeiros botões da nossa segunda florada. Não perdemos tempo: é preciso acordar cedo e fazer a polinização. Antes do meio-dia, as flores já murcham. Outros botões virão nos próximos dias e repetiremos tudo.

O cuidado com a baunilha requer dedicação e atenção. É preciso escolher um local adequado, com sol matinal e espaço vertical para que ela cresça. O aroma doce de baunilha está na entrada de Nomes de terra, meu pequeno-romance-crônica lançado ano passado. A planta reaparece em outro momento do livro, mas bem rápido. Que tal ela ganhar uma história só dela?