segunda-feira, 22 de junho de 2026

Inspirações

Alguns dizem que a parte mais difícil de escrever é ter uma ideia boa. Eu concordo, em parte. Nem tudo vai ser uma história incrível, mas é preciso exercitar o olhar. Quando nos tornamos sensíveis ao que está ao redor, percebemos histórias muito interessantes em vários lugares inusitados.

O começo pode ser difícil, e desenvolver é bem desafiador. Mas é preciso também deixar que a história fale por si mesma e nos convide a caminhar com ela. Coleciono muitas histórias e tenho a sorte de conviver com ótimos contadores de história. Minha avó certamente é uma das melhores: traz nomes, detalhes, viradas inesperadas e arremates inusitados. A partir de suas contações, escrevi várias cenas de Nomes de terra (lá também estão as minhas percepções e as minhas próprias narrativas) e ainda mais algumas histórias para projetos futuros.

Caminhadas também são uma grande fonte de inspiração pra mim. 




 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Aventuras cinematográficas

Saiu um novo número da revista Corte Seco, da Universidade Federal do Cariri (UFCA). Dessa vez, colaborei com dois textos. No lançamento, pudemos falar um pouco da produção e conversar sobre cinema.

A capa foi criada pelo coletivo Fritura e traz uma representação de uma lenda do povo kariri, a pedra da Batateira: 

Em 2018, fiz um filme de ficção com um amigo francês, Aodren Buart, sobre a lenda da pedra. Filmamos em alguns pontos da cidade e no Sítio Fundão, em Crato. Nosso filme estreou na Mostra de Curtas do Sesc, em 2019, e participou do Festival de Curtas de Taguatinga naquele mesmo ano. Também visitei algumas escolas públicas da cidade com o diretor Jefferson de Albuquerque Jr. com a mostra que organizamos para o Salão de Outubro, em 2024, junto com outros filmes sobre preservação de fontes e florestas.

Na oportunidade do evento, também participei da mostra competitiva de curtas, com o meu filme "cinema?"(2024):

Para a Corte Seco, participei de uma entrevista com Aodren em que falamos sobre a produção do filme e outros aspectos como a escrita do roteiro, os lugares que escolhemos filmar, a incorporação de lendas locais na história e a composição da trilha sonora, feita por mim.


O outro texto está na seção Frame a frame, em que escrevi sobre um filme a partir de apenas um frame dele. O filme que escolhi foi "O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto" (1985), dirigido Rosemberg Cariry. Curioso é que uma semana depois de ter escrito o texto, em agosto de 2024, tomei um café com o diretor e conversamos bastante, inclusive sobre a cena que escolhi para o texto. Foi importante ouvi-lo e eu quis trazer muito do que conversamos para a minha escrita, mas àquela altura o material já estava em edição, então alguns detalhes ficaram de fora. Mesmo assim, vou deixá-lo na íntegra aqui embaixo para aqueles que se interessarem.
Cinema é um assunto que adoro. Tenho várias resenhas, críticas e crônicas sobre filmes, algumas publicadas em revistas como a Sétima e a Baldio, outras saíram em jornais universitários ou viraram artigos acadêmicos. Quem sabe não trago aqui algumas delas?


Texto na íntegra de FRAME A FRAME - O caldeirão da Santa Cruz do Deserto (1985, dir. Rosemberg Cariry), por Gilles Diniz

A carcaça sangrenta da cabeça do zebu nos olha. O chifre está em riste e o olho, brilhante como uma ônix polida, nos mira apavorado. Caveira do amanhã, os veios rompidos minam pelo arcabouço em ruínas do boi Mansinho. Cenas como esta nos fazem lembrar das naturezas-mortas que vemos pelos museus ao redor do mundo, as quais, pensando na vida e na morte, enquanto contemplamos, num misto de pavor e deleite uma raia aberta ao meio, pendurada acima da mesa da cozinha[1], ou uma lebre amarrada pronta para ser tirada a sua pelugem[2]. Se pensarmos no injusto sacrifício do Mansinho, acusado de ser o ídolo de um culto, antes o tivessem tornado um Judas, como nos últimos dias da Semana Santa, e o chamado Bartolomeu[3] para, com ele, vingar a memória daqueles que pereceram por perseverar. A cabeça de zebu, como veremos em outro momento do filme, nos lembra as cabeças de ex-votos nas dunas, rodeados de chorões-da-praia, como os que também encontramos nas paredes do museu do Horto. O olho de ônix leitosa não desvia um segundo sequer de nós, como se quisesse evocar alguma lembrança da terra desolada.

No próximo corte, vemos o Museu Histórico do Estado, em que somos guiados, como num sonho dançante, por uma trupe vinda de um claro-escuro sobrenatural, como se abrissem as portas para que uma luz sagrada invadisse o salão. É quando também ouvimos uma canção de ciranda que mais se assemelha a uma jaculatória melodiosa. Então as personagens de um reisado adentram as salas repletas de mostruários, ciceroneando-nos pelos corredores de um museu feito com os seus objetos sagrados, símbolos da terra desolada. Procedem sua dança com roupas coloridas, tocando pífanos e alfaias, em vestes que nos lembram a Commedia dell’Arte ou a Fiesta de Los Muertos. Mas logo descobrimos na memória de onde aquela pantomima nos é familiar: é o boi, o fantasma, o guerreiro, o rei e o jaraguá, personagens do reisado. Eles estão em volta dos objetos que restaram do beato José Lourenço[4], o filho de pais alforriados que liderou a comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto.

Os rostos inexpressivos olham as ferramentas agrícolas do beato que são, para eles, como suas “alfaias”[5], seus objetos sagrados de sacerdote. O sobrenatural habita estas terras há muito tempo, mas tão logo a igreja encontrou nisso um indício acusatório, mandara prender o beato e o zebu fora sacrificado. É quando a trupe dançante se reúne em volta do mostruário, retoma as insígnias de seu maestro e segue em romaria sob as palavras de Capistrano de Abreu,

 

A mim preocupa o povo, durante três séculos, capado e recapado, sangrado e ressangrado…[6]

 

A “terra de fanáticos”[7], título dado pelas soberbas coroas da igreja, como ela existem tantas outras pelo mundo, mas basta perguntar a qualquer passante ou romeiro, a um comerciante que hoje faz o pregão da calçada ou ao camponês dos tempos de outrora, a resposta será aproximada: há um messias, portanto aquela é uma nova Jerusalém[8]. E não encontramos apenas o messias e a terra santa prometida, mas também na beata Maria de Araújo[9] o seu mártir e no Caldeirão a sua Guernica[10], antes o “refúgio nas colinas”[11].  Se hoje é com horror que vemos terras como estas serem desoladas, quando já não há mais nenhum profeta que indique o caminho das montanhas, é com pesar semelhante que vemos rezarem aos estilhaços restantes os poucos camponeses que retomam em suas mãos, como as lembranças e as promessas de uma terra prometida, as insígnias da perseverança.  E se na Guernica a lâmpada progressista ilumina e revela os destroços retorcidos e multiformes de uma cidade basca, revemos as mesmas forças, agora diferentes, se arregimentarem muitas outras vezes em Gaza, em Rafah, em Damasco, em Ramallah[12].

Então os peregrinos oferecem a sua música e a sua dança, que são como uma evocação rodopiante, enquanto reivindicam pelas paredes de um museu nada mais que a memória de um homem e de uma terra. E é neste momento que o telespectador está pronto para conhecer a história que vão contar, e que dará sentido retrospectivo àquela chegada triunfal da trupe vinda das luzes fulgurantes da rua.



[1] A Raia é uma obra de 1728 do pintor francês Jean-Siméon Chardin.

[2] Lebre morta com chifre de pó e gamebag é uma obra de 1726-30 do pintor francês Jean-Siméon Chardin.

[3] Floro Bartolomeu foi um médico e político brasileiro que viveu em Juazeiro do Norte e fora amigo próximo a Padre Cícero, tendo o convencido a ingressar na carreira política. Em 1921, surge o boato de que os habitantes do Sítio Baixa Dantas, em Crato, também conhecido como Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, estavam venerando como um deus um boi chamado Mansinho, dado por Padre Cícero. Para contornar a situação, Floro Bartolomeu ordenou que o boi fosse morto e o beato José Lourenço, líder da comunidade, fosse preso.

[4] José Lourenço Gomes da Silva, também conhecido como Beato José Lourenço, foi o líder da comunidade Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, localizado no Sítio Baixa Dantas, no Cariri. Era filho de pais alforriados e veio da Paraíba para o Ceará ainda jovem. Arrendou o Sítio Baixa Dantas e o transformou em uma comunidade agrícola, que tempos depois foi duramente perseguida e arrasada por latifundiários locais e forças policiais.

[5] Alfaia é o nome que designa tanto os utensílios sagrados de enfeite e de uso por um sacerdote como um instrumento afro-brasileiro de percussão usado principalmente no ritmo Maracatu, no Coco e na Ciranda.

[6] O cearense Capistrano de Abreu (1853-1927) foi o principal nome da historiografia brasileira na passagem do século IXI para o XX. A produção historiográfica até então tinha como centro os chamados grandes vultos das elites e da aristocracia. O que tínhamos, até ele, era uma história sem povo. Capistrano inovou ao introduzir o povo na historiografia brasileira. Certa vez, escreveu em uma carta a João Lúcio de Azevedo: “A mim preocupa o povo, durante três séculos capado e recapado, sangrado e ressangrado”. Essa inquietação, numa época em que a história simplesmente desconsiderava os comuns, acabou tornando-o um dos maiores historiadores brasileiros.

[7] A Igreja passou a ver a cidade de Juazeiro do Norte como uma “terra de fanáticos” devido à devoção de seu povo a Padre Cícero.

[8] A cidade de Juazeiro do Norte recebeu vários outros nomes devido a sua fama de devota: Meca dos Sertões, Jerusalém Brasileira, Cidade Santa ou Cidade da Mãe de Deus.

[9] Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, mais conhecida como Beata Maria de Araújo (1861-1914), foi uma religiosa brasileira, declarada beata pela devoção popular, mas não pela Igreja Católica.

[10] Guernica, uma das obras mais famosas de Pablo Picasso (1881–1973), pintada a óleo em 1937, é uma “declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”. No quadro, está retratado o Bombardeio de Guernica, ocorrido em 26 de abril de 1937, por um ataque aéreo de aviões alemães da Legião Condor durante a Guerra Civil Espanhola no País Basco. Além de ser um ícone da Guerra Civil Espanhola, a pintura de Picasso é hoje um símbolo do antimilitarismo mundial e da luta pela liberdade do ser humano.

[11] No livro de Marcos, “E sereis odiados por todos por causa do meu nome; mas quem perseverar até o fim, esse será salvo. Ora, quando vós virdes a abominação da desolação, que foi predita pelo profeta Daniel, estando onde não deve estar (quem lê, entenda), então os que estiverem na Judeia fujam para os montes.”

[12] Cidades invadidas por Israel durante os últimos meses: Gaza e Rafah, na Palestina, Damasco, capital da Síria; Ramallah, capital da Cisjordânia.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

As cores da terra, as cores da vida

Visitei a exposição "Cariri:corpo, terra e cultura" do Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo (Crato). Muitos trabalhos importantes estavam reunidos e fiquei feliz de vê-los ocupando as galerias. Requer um bom tempo para ver tudo com calma e há bastante sobre o que pensar...
Os artistas já consagrados tiveram destaque importante: esculturas do centro Mestre Noza, as de Sérvulo Esmeraldo, as da família Cândido. Xilogravuras de Stênio, Nilo, Abraão, Iraci. Também pinturas de Vicente Leite, Karimai, Babinski, Cocão. As linhas mágicas de Ciel e as de Herbert. A região tem artistas muito talentosos.

Muitas cores e formas, todas reunidas como num baile de cenas do Cariri. Nomes novos também compõem a exposição com seus trabalhos recentes. Gostei de ver as aquarelas de Lídia, que ela cuidadosamente havia mostrado a mim e a uma amiga quando passamos um dia luminoso com o casal Babinski no ateliê-casa, em Várzea Alegre. Gosto sempre de contemplar as obras de Aldemir Martins, de quem sou fã do traço e das formas.

Ainda assim, senti falta de alguns artistas. Nomes novos estavam presentes, com trabalhos recentes, mas alguns simplesmente não estavam. Em alguns trabalhos, senti falta de um silêncio que pode ser sugerido para que o observador elabore suas própria percepção. Nesses, não me demorei tanto e acho que poderiam ter dado lugar a outras obras. Aliás, as galerias tem dimensões suficientes para receber mais variedade e evitar repetir um mesmo artista em espaços diferentes. Senti falta de algo sobre o cinema, talvez porque esse seja um assunto que me é caro. O cinema tem estado na cultura do Cariri (em especial Crato, Juazeiro e Barbalha) desde o início do século XX, tendo sido em Crato, em 1912, a primeira sessão de cinema do interior do estado. São mais de cem anos de uma história local com o cinema, ainda que apagada, esquecida. Mas não devemos pensar somente naquilo que está ausente, portanto, gostaria de destacar as obras de duas artistas que me marcaram.
 
Estive muito feliz ao encontrar a série 'Flora Cariri' da artista Andreia Sobreira e uma série de natureza-morta da artista Renata Felinto.

Na primeira, gravuras feitas com entalhes na madeira (xilogravura) mas que, diverso de uma tradição local já bastante antiga, oferecem uma proposta diferente. Ao invés de gravuras retangulares, o formato cápsula, quase como o de uma semente, me tocou especialmente. Não apenas isso. Penso que a tinta escolhida para a gravura não foi a tipográfica tradicional, bastante preta, mas uma tinta feita com pigmentos naturais. O efeito é uma textura delicada sobre o papel que conversa intimamente com o tema, a flora, e o traço delicado de Andreia. Gostei muito da composições escolhidas, me lembraram bastante as pranchas de espécies de plantas feitas por naturalistas e ao mesmo tempo a composição captada da observação natural, que é a mesma que buscamos com o sumi-e.

Na segunda, natureza-mortas que chegam a ser irônicas em relação ao termo. Muitas cores vivas em pastel seco trazem cenas cotidianas de frutas observadas. Pinha (foto), banana, laranja. Todas parecem evocar algo que tomo emprestado das palavras Monet e que virou uma frase-mantra pra mim: "O que mantém meu coração acordado é um silêncio colorido". Nos quadros de Felinto, tudo se fez silêncio guiado por cores: é a comida e sua diversidade, seus aromas, suas texturas, formas, cores. Mas também é uma comida que nos reúne à mesa ou a que observamos sozinhos em nossos momentos de solidão, reflexão. O pastel seco trouxe, além de uma textura que me lembra a infância, um lembrete das muitas cores que habitam as coisas. Não discernimos todas na pressa dos dias, mas um olhar atencioso nos revela a sua variedade.

Muitos são os artistas da exposição e vale a pena ir conferir de perto.

terça-feira, 26 de maio de 2026

PUFFY 30

Alguns projetos guardamos apenas no coração. Em 2021, iniciei um projeto de fanzine e sabia que levaria muito tempo para elaborar.

Aqueles que me conhecem há bastante tempo sabem o quanto sou fã do duo de rock japonês PUFFY. Há pelo menos 25 anos (mais da metade da idade que tenho agora) tenho acompanhado o trabalho da dupla e visto mudanças musicais e estéticas em sua carreira, que muito me ensinaram sobre experimentar coisas novas (técnicas, estéticas, influências). Sim, penso que quando gostamos muito de algo essa coisa nos fornece não apenas prazer mas algum aprendizado. Cresci junto com PUFFY, mesmo tendo conhecido a sua música quando já era adolescente. Talvez por isso mesmo minha admiração tenha sido tão formadora, já que nasceu num momento de amadurecimento.

Com PUFFY eu conheci diferentes ritmos e descobri que o rock não precisa ser um gênero musical fechado. A banda me mostrou que é possível misturar ritmos, instrumentos, brincar com a música e se divertir com isso. Foi com PUFFY que conheci muitos outros artistas talentosos como Electric Light Orchestra, The Cardigans, Eels, The Monkees, Jellyfish... Também àquela época foi quando comecei a realmente estudar a língua japonesa, buscando na música um jeito de aprender a pronúncia.

Há cinco anos, comecei a criar um fanzine ilustrado como uma espécie de Guia para apresentar a banda aos brasileiros. Nele, eu conto um pouco da história da dupla, suas influências musicais, curiosidades sobre Ami e Yumi, além de fazer pequenas resenhas para todos os singles e álbuns lançados. Não preciso nem dizer que esse trabalho de redator da Wikipedia precisou ser engavetado por mil e um fatores.

No último dia 13, a banda completou 30 anos de carreira e está nos preparativos para um grande evento comemorativo em junho. Depois de muito tempo, finalmente, outro fã que sempre acompanho (https://amiyumidas.blogspot.com/2026/05/pfes-final-line-up.html) postou uma resenha sobre o lançamento da última coletânea lançada. Isso me motivou a escrever sobre. O fanzine está guardado, mas quis trazer algumas das ilustrações que fiz para as resenhas dos álbuns.

Vou deixar aqui uma rara entrevista em inglês feita no aniversário de 15 anos de PUFFY, para uma revista norte-americana. Vale a pena uma conferida principalmente para quem não sabe absolutamente nada sobre a dupla: https://nt2099.com/J-ENT/INTERVIEWS/puffyamiyumi/puffy15.pdf

terça-feira, 12 de maio de 2026

ipomeias pelo caminho

Esses dias, quando voltava pra casa, vi uma cerca de um terreno baldio coberta de ipomeias. Era fim de tarde e a luz do por do sol transformou o azul acetinado das flores num roxo delicado. Não resisti e já quis fazer uma pintura delas. São facilmente encontradas pela estrada, e dão à paisagem um toque único, já que os tons de azul são mais raros na natureza.

Eu quis levar a leveza das ipomeias de presente a uma tia-avó que fez aniversário ontem, por isso dediquei essa pintura a ela. Ela não só amou como me encomendou outras.