Cinema é um assunto que adoro. Tenho várias resenhas, críticas e crônicas sobre filmes, algumas publicadas em revistas como a Sétima e a Baldio, outras saíram em jornais universitários ou viraram artigos acadêmicos. Quem sabe não trago aqui algumas delas?
Texto na íntegra de
FRAME A FRAME - O caldeirão da Santa Cruz do Deserto (1985, dir. Rosemberg Cariry), por Gilles Diniz
A carcaça sangrenta da cabeça do
zebu nos olha. O chifre está em riste e o olho, brilhante como uma ônix polida,
nos mira apavorado. Caveira do amanhã, os veios rompidos minam pelo arcabouço
em ruínas do boi Mansinho. Cenas como esta nos fazem lembrar das
naturezas-mortas que vemos pelos museus ao redor do mundo, as quais, pensando
na vida e na morte, enquanto contemplamos, num misto de pavor e deleite uma raia
aberta ao meio, pendurada acima da mesa da cozinha,
ou uma lebre amarrada pronta para ser tirada a sua pelugem.
Se pensarmos no injusto sacrifício do Mansinho, acusado de ser o ídolo de um
culto, antes o tivessem tornado um Judas, como nos últimos dias da Semana
Santa, e o chamado Bartolomeu
para, com ele, vingar a memória daqueles que pereceram por perseverar. A cabeça
de zebu, como veremos em outro momento do filme, nos lembra as cabeças de
ex-votos nas dunas, rodeados de chorões-da-praia, como os que também
encontramos nas paredes do museu do Horto. O olho de ônix leitosa não desvia um
segundo sequer de nós, como se quisesse evocar alguma lembrança da terra
desolada.
No próximo corte, vemos o Museu
Histórico do Estado, em que somos guiados, como num sonho dançante, por uma
trupe vinda de um claro-escuro sobrenatural, como se abrissem as portas para
que uma luz sagrada invadisse o salão. É quando também ouvimos uma canção de
ciranda que mais se assemelha a uma jaculatória melodiosa. Então as personagens
de um reisado adentram as salas repletas de mostruários, ciceroneando-nos pelos
corredores de um museu feito com os seus objetos sagrados, símbolos da terra desolada.
Procedem sua dança com roupas coloridas, tocando pífanos e alfaias, em vestes
que nos lembram a Commedia dell’Arte ou a Fiesta de Los Muertos. Mas logo descobrimos
na memória de onde aquela pantomima nos é familiar: é o boi, o fantasma, o
guerreiro, o rei e o jaraguá, personagens do reisado. Eles estão em volta dos
objetos que restaram do beato José Lourenço,
o filho de pais alforriados que liderou a comunidade do Caldeirão da Santa Cruz
do Deserto.
Os rostos inexpressivos olham as
ferramentas agrícolas do beato que são, para eles, como suas “alfaias”,
seus objetos sagrados de sacerdote. O sobrenatural habita estas terras há muito
tempo, mas tão logo a igreja encontrou nisso um indício acusatório, mandara
prender o beato e o zebu fora sacrificado. É quando a trupe dançante se reúne
em volta do mostruário, retoma as insígnias de seu maestro e segue em romaria
sob as palavras de Capistrano de Abreu,
A mim
preocupa o povo, durante três séculos, capado e recapado, sangrado e
ressangrado…
A “terra de fanáticos”,
título dado pelas soberbas coroas da igreja, como ela existem tantas outras
pelo mundo, mas basta perguntar a qualquer passante ou romeiro, a um
comerciante que hoje faz o pregão da calçada ou ao camponês dos tempos de
outrora, a resposta será aproximada: há um messias, portanto aquela é uma nova
Jerusalém.
E não encontramos apenas o messias e a terra santa prometida, mas também na
beata Maria de Araújo
o seu mártir e no Caldeirão a sua Guernica,
antes o “refúgio nas colinas”. Se hoje é com horror que vemos terras como
estas serem desoladas, quando já não há mais nenhum profeta que indique o
caminho das montanhas, é com pesar semelhante que vemos rezarem aos estilhaços
restantes os poucos camponeses que retomam em suas mãos, como as lembranças e
as promessas de uma terra prometida, as insígnias da perseverança. E se na Guernica a lâmpada progressista
ilumina e revela os destroços retorcidos e multiformes de uma cidade basca,
revemos as mesmas forças, agora diferentes, se arregimentarem muitas outras
vezes em Gaza, em Rafah, em Damasco, em Ramallah.
Então os peregrinos oferecem a
sua música e a sua dança, que são como uma evocação rodopiante, enquanto
reivindicam pelas paredes de um museu nada mais que a memória de um homem e de
uma terra. E é neste momento que o telespectador está pronto para conhecer a
história que vão contar, e que dará sentido retrospectivo àquela chegada triunfal
da trupe vinda das luzes fulgurantes da rua.